O velho na janela
| Imagem ilustrativa |
Ela é bem grande, mas acho que não chega a ser um casarão. As portas e janelas do andar de baixo estão fechadas com tijolos, e há um portão de grade, largo o suficiente para passar um carro. Por esse portão, fechado com várias correntes e cadeados, também é possível ver uma parte do quintal. O vão entre o portão e o teto da garagem não é grande o suficiente para uma pessoa conseguir passar por ali. Salvo se por trás da casa o acesso for mais aberto, realmente não parece ser um lugar tão fácil de entrar. Como eu já disse, a casa fica no caminho para o meu trabalho. Às vezes faço caminhos diferentes e não passo especificamente por ali todos os dias.
Certo dia, vi um homem, negro e velho, em uma das janelas do andar de cima. Não me assustei, mas fiquei surpresa, pois nunca vi ninguém dentro daquela casa. Imediatamente minha mente começou a funcionar: seria um morador de rua que entrou ali para se abrigar? Não, ele estava bem vestido, e pelo pouco que consegui enxergar, as roupas - um terno de cor clara, talvez bege ou cinza - pareciam limpas, e usava um chapéu. Além do mais, essa casa parece difícil de invadir, e na região tem muitas outras casas abandonadas com muro baixo e bem mais fáceis de entrar. Meu lado lógico me convenceu de que o homem era apenas o dono da casa, ou talvez algum funcionário que estava ali para, sei lá, verificar o estado do imóvel para uma provável reforma? Um engenheiro, arquiteto, ou até mesmo um pedreiro. Provavelmente foi isso, mas achei estranho o chapéu. Não estamos na Avenida Paulista, e nem nos anos 30. Em qualquer uma dessas ocasiões, um chapéu daquele seria perfeitamente aceitável. Não no interior de São Paulo, em 2024, num dia quente demais para usar chapéu, num lugar que com certeza não tem ar condicionado.
O que me intrigou foi que ele só ficava lá, parado na janela. Lembrei de pinturas como a Monalisa, cujo olhar te acompanha não importa de qual direção você estiver olhando. Não parecia uma pintura, era uma pessoa de verdade. Ele olhava fixamente para mim, mas não fiquei com medo. Normalmente eu fico. Não senti nada, só achei curioso. Fiquei olhando de volta para ele durante o tempo que passei por aquele quarteirão e quando uma árvore prejudicou minha visão da janela, voltei a andar olhando para frente. Quando cheguei no trabalho, já tinha esquecido daquele senhor.
Os próximos dias foram bem loucos, tive uns compromissos antes de ir para o trabalho, então fiquei alguns dias sem passar na frente daquela casa de novo. De vez em quando ainda me pegava pensando no velho na janela, mas rapidamente outra coisa me distraía e eu ficava mais um tempo sem nem pensar no assunto... até que uma vez, saindo do trabalho, passei na frente da casa, e o velho estava lá! Não falei nada, mas acenei dessa vez. Ele não se mexeu e nem pareceu mudar a expressão. Se eu não tinha achado esse caso estranho antes, agora eu tinha começado a achar.
No dia seguinte, passei pela casa de novo. Meu amigo estava lá, na mesma posição, com o mesmo chapéu. E assim aconteceu quando saí do trabalho, e no dia seguinte, e em vários dias que se seguiram. Foi realmente muito estranho. Cheguei a pensar até que era um manequim, ou o reflexo de uma pessoa do outro lado da rua, mas essa nova hipótese seria impossível. Do outro lado da rua, todas as casas eram térreas, e do ângulo que eu enxergava na rua, as únicas coisas que se refletiam no vidro da janela eram o céu, um poste e os cabos de energia. A teoria do manequim também era improvável, porque a janela do segundo andar não é tão longe assim a ponto de eu conseguir fazer esse tipo de confusão.
Em determinado momento reparei nas correntes com cadeados no portão: elas ainda estavam ali, e colocadas de um jeito que pareciam ter sido fechadas por fora. Mas o que isso significava? O velho na janela era um fantasma ou só uma pessoa zoando com a minha cara? Eu nem sei se acredito em fantasmas, sinceramente. Tanto é que não falei disso com ninguém do trabalho para ninguém achar que estou com parafusos a menos. Pensei em tirar uma foto das correntes e comparar o jeito como estariam enroladas ao longo dos dias, mas quando a hora chegava eu sempre esquecia de fazer isso.
Essa história não tem nada de mirabolante. Com o tempo, deixei essa paranóia de lado. Nem sei se dá para chamar o que senti nesses dias de paranóia, mas estou usando essa palavra por falta de outra melhor. Fiz outros caminhos para ir e voltar do trabalho para não passar mais na frente daquela casa. Eventualmente voltei, sem querer e sem pensar, a usar o meu antigo caminho passando pela casa, e nunca mais vi aquele senhor. Mas confesso que, de vez em quando, ainda olho para cima, na esperança de ver novamente o velho na janela.
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