A barata fantasma

O ano era 2010, eu estava no terceiro ano de faculdade e tinha pavor de barata. Na verdade ainda tenho, mas a minha impressão é que na época era pior.

Como toda boa universitária dura e falida, dividia um apartamento com alguns amigos. E claro, como a grande maioria das república de estudantes, o lugar era uma bagunça. Não era exatamente sujo, pois éramos pobres, mas ainda tínhamos alguma dignidade. Não limpávamos com a frequência que deveríamos, mas já era bem mais do que nas outras repúblicas que frequentávamos. Digamos que era um lugar decentemente limpo na maioria das vezes, mas fisicamente bagunçado. Éramos todos artistas, qualquer pedaço de madeira encontrado na rua tinha potencial para virar alguma coisa bacana, então tinha tralha pra todo lado.

Meu quarto era um dos cômodos mais bagunçados da casa, admito. Nunca fui boa em manter as coisas arrumadas. Mas era uma bagunça limpa, e por causa do meu pavor de barata, eu tomava várias medidas para impedir essas demônias de entrarem no meu cantinho. Por exemplo: evitava ao máximo comer lá dentro, fechava a janela assim que anoitecia, espalhava pelo local aquelas bolinhas de naftalina. Nos dias de limpeza, espirrava inseticida no chão como se fosse um produto pós-limpeza. Na lixeira só tinha papel, casquinhas de lápis e outros materiais secos. Não é como se essas criaturas demoníacas aparecessem o tempo todo na nossa casa, mas graças aos meus esforços, dentro do meu quarto nunca houve nenhum avistamento. Guardem essa palavra: AVISTAMENTO.

Agora tem outra informação que preciso liberar antes de continuar esse causo: meu pavor de barata é tanto que eu consigo não só sentir o cheiro, como também ouvir o apavorante som das perninhas delas andando pelos tacos de madeira do chão. Já aconteceu de eu conseguir acordar de madrugada com esse som, mesmo com o barulho do ventilador abafando tudo.

Voltemos à história. Numa bela noite, eu estava deitada na minha cama, descansando, naquele limbo entre o mundo desperto e o sono. O computador estava ligado com a janela do MSN aberta, deixando o ambiente com uma luz azulada. Os tempos pré-smartphone eram assim: a gente só entrava na internet através de computadores. Eu estava quase dormindo, quando de repente despertei com o som das patinhas andando no chão. Puta merda, uma demônia tinha entrado. Como ela conseguiu? Janela fechada, naftalinas em ordem, e eu tinha limpado o chão e passado inseticida naquela mesma semana. Criei coragem e acendi a luz, cujo interruptor ficava a uma esticada de braço de distância. Nessas horas eu fico em alerta máximo.

Ela andava um pouco e parava. Depois andava mais um pouco, parava de novo. Então aos poucos tentei seguir o som e tentar descobrir onde, exatamente, ela estava. Peguei o tubo de inseticida, que ficava no chão ao lado da cama, e comecei a procurar o bicho. O que me aliviou nessa situação é que o som vinha de baixo e eu não vi nada subindo pelas paredes. Informação útil: a maioria das baratas só voa se subir em algum lugar primeiro. Nossas maiores chances de derrotar esse mal vindo do esgoto é enquanto elas ainda estão no chão, ou na altura mais baixa possível caso já tenham subido na parede.

De repente, o som muda. Ela não estava mais no chão. Parecia estar andando em algo mais barulhento, como uma sacola plástica. E num espaço entre a parede e o armário, haviam algumas sacolas, dessas de supermercado, com roupas para lavar. Também havia a sacola da lixeira, o que teria sido muito mais simples, mas infelizmente o som não vinha de lá.

Bingo! A demônia estava ali, nas sacolas ao lado do armário. Talvez atraída pelo suor nas roupas? Elas nem estavam tão sujas assim.

SÓ QUE NÃO.

Ela estava, mas não estava.

Eu conseguia ver um movimento no plástico da sacola, como se tivesse alguma coisinha andando ali. Dava pra perceber que tinha um certo peso e porra, eu ouvia o som. Mas não tinha nada! E além disso, também não senti o cheiro, aquele cheiro horrível de esgoto, meio oleoso e mofado. O "peso" se movia pela sacola, como se fosse uma barata mesmo. Tinha o tamanho de uma barata e se movia como uma. Mas não havia barata nenhuma. Fiquei tentando entender o que estava acontecendo. Sempre tento pensar na solução mais lógica possível para as coisas estranhas que me acontecem, mas naquele momento, considerando-se o que eu estava vendo e não vendo ao mesmo tempo, só consegui pensar em duas possibilidades:

1 - Era uma barata invisível
2 - Era uma barata fantasma

Então entrei em conflito comigo mesma. Se ela era invisível, eu deveria conseguir sentir o cheiro. Mas se ela era fantasma, talvez não devesse conseguir mover o plástico da sacola.

Depois de alguns momentos de dúvida e crise existencial, lembrei que eu havia tido um dia bem longo e estava cansada. Queria muito dormir, mas para isso precisava resolver o assunto. Apontei o tubo de inseticida para onde aquela coisa parecia estar, e ao contrário do que normalmente acontece, aquilo não se mexeu. Passei mais inseticida nos cantos do quarto, embaixo e atrás do armário, embaixo da cama e em todos os lugares onde uma barata poderia se esconder. Dei uma chinelada na sacola para o que quer que estivesse ali caísse no chão, mas não senti nada caindo, e também não ouvi mais nada, nem naquela noite e nem em todas as outras noites em que morei naquela casa. O que quer que fosse, sumiu quando apertei o spray do inseticida, e até hoje continuo sem uma resposta exata para o que aconteceu.

O texto de hoje não tem foto ilustrativa. Baratas me deixam desconfortável demais para procurar imagens delas.

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